Depois de um amplo retiro cristão monástico estava de volta ao meu mundo. Luz vermelha, fumaça barata e perfume ordinário. Estava de volta ao antro no qual havia sido parido. A Madame, e seu seio maternal, me consolava com uma pinga com limão e mostrando a carta de vinhos. O balcão vira o meu confessionário, e a Madame minha confessora.
- Como você pode ficar tanto tempo longe de mim, mon’amour?
- O amor, Madame...
- Não há amor, que dure, longe dessas paredes!
Ao som de algum cantor que canta as mesmas canções de sempre os meus pen-samentos vão se diluindo junto com os goles profundos da pinga. Estava começando a ficar muito bem. Aquele lugar era muito bom para mim, como pode ficar tanto tempo longe dali? Alguém poderia me explicar?
- Por que ela me deixou, Madame?
- Porque tinha de ser, filho, tinha de ser... Às vezes a gente se apaixona perdida-mente e não conseguimos enxergar mais nada.
- Mas e o amor que a gente tinha?
- Vocês ainda têm.
- E por que estamos sozinhos então?
- Porque não era eterno, nada é eterno. Quero dizer, o meu amor é eterno e Deus é eterno, o resto, o resto é o que sobra.
Trago um cigarro e peço um conhaque. Olho em volta e sinto exatamente esse amor que Madame tanto fala. Não tinha escapatória, me apaixonei por todas as meninas do lugar. Todas são lindas, todas são charmosas, todas são atraentes. Mesmo aqueles com quem eu nunca teria nada.
- Você realmente me fez muita falta, filho.
- E você também, Madame. Por que sumi daqui, Madame?
- Você fez o que tinha que ser feito, filho... Na há remorsos dentro dessas pare-des. Não há nenhum remorso dentro do meu amor.
- Fico mais do que feliz, Madame.
- Acho que sei exatamente o que você precisa, filho.
Ela faz um gesto com a cabeça e me mostra uma moça.
- É a primeira noite dela, por alguma intuição sabia que deveria ser hoje. Seu nome é Joana, ela é toda sua, filho.
Uma menina, mais ou menos uns dezoito anos, cabelos vermelhos soltos, cres-pos como deveriam ser, corpo esguio e alongado, braços com movimentos suaves, seios pequenos e um belo quadril.
Joana... e que belo nome!
Meio desajeitado, talvez pela situação e pela pinga, me levanto do banco e me dirijo até onde ela está, do outro lado do salão. Ela está sozinha, nenhum cliente ou co-lega está perto dela. Sempre fui uma pessoa muito tímida, muito retraída e introspectiva. Não sabia como agir naquela situação. Faz um bom tempo que não ia naquele lugar, as meninas quase todas haviam mudado. E não me sentia muito bem com aquela situação.
- Joana?
- Sim...
- Não tenha medo... eu sei que é o seu primeiro dia aqui.
- Como assim?
- Ela me contou tudo.
Aponto para a Madame que nos retribui o olhar e acena.
- Tudo bem então... ela me disse que isso iria acabar acontecendo. Você promete ser gentil comigo?
- Joana, tudo o que eu preciso hoje, de verdade, é de companhia...
- Mas vamos...
- Só se você estiver pronta para tal.
Ela me pegou suavemente pelo braço, subimos as escadas. A fumaça e o olor de perfume não nos atingiam mais, de forma alguma. A pinga tinha desaparecido também. Estava sóbrio e pronto.
- Qual o seu quarto, Joana?
- O quatorze.
- Número bonito...
- Você acha?
- Me traz grandes lembranças.
- Aqui?
- Não, além dessas paredes.
- Entendi...
Ela abre o quarto quatorze. Entramos. Um quarto dos pequenos, já havia entrado em um desses. Tinha apenas a cama, um criado-mudo e um abajur. Um pequeno baú, provavelmente com todas as roupas da moça, e a janela do outro lado da cama. Ela liga a luz do teto. Meus olhos doem por um segundo e vejo melhor o quarto e Joana. Ela é linda, seus olhos verdes faíscam um misto de medo e segurança.
- Eu te conheço! Você é o homem que a Madame vive chamando de Filho.
- Como você sabe?
- Ela vive falando de você, te descrevendo, de como você era um assíduo fre-qüentador até de repente sumir.
- Acho que ela nunca te contou nada.
Ela se vira para mim, ainda com muito medo, e me pergunta.
- O que eu devo fazer?
Ela começa a tirar a blusa.
- Na verdade, nada.
Seus olhos explodem de uma alegria interna.
- Eu preciso falar. Falar tudo. Isso será uma espécie de terapia.
- Então pode falar, tentarei ser o melhor possível.
- Eu quero saber a sua história, Joana.
- Como assim?
- Quero saber quem é você, etc.
- Ah... bem... por onde começar...?
- Como você veio parar aqui?
- Drogas... desde os meus treze anos eu uso drogas, ou melhor usava. Minha família me internou numa clínica quando eu tinha dezessete e depois nunca mais paga-ram a conta de lá e acabei ficando na rua. Não sabia o que fazer, até a Madame me tirar das ruas e me trazer prá cá. No começo eu ficava apenas na limpeza, mas ai uma menina vou embora com um doutor, acho que era um juiz, e ai ela precisa de uma substituta e começou a me treinar para o “cargo”.
- Nossa...
- Já sei... que história triste e blá blá blá...
- Mas e não é?
- Pode ate ser. Mas eu to aqui, viva e forte.
- Se fosse comigo eu nunca mais teria andado na vida... você tem muita cora-gem.
- Quem tem coragem é herói. E mesmo assim, eles não sabem que são corajosos.
- Mas..,
- É sério, não me acho grandes coisas. Olha só a minha vida: estou presa num prostíbulo, e só vou sair daqui quando alguém me comprar ou quando eu morrer. Ou quando não for mais bonita...
- Acho que isso é quase impossível...
- O quê?
- Nada...
Nos inclinamos e nosso lábios acabaram por se encontrar. Foi reconfortante, terapêutico... Naquele instante em diante eu tinha esquecido completamente o meu pas-sado. Ele agora era apenas uma cicatriz, não havia mais dor, havia apenas a marca morta de alguma ferida. Não vai ser a única, nem a última.
Joana estava ainda mais tranqüila agora. Parecia em paz consigo mesma. Talvez eu estivesse em paz comigo mesmo também. Quem poderia dizer o que se passa com uma outra pessoa? Eu? Jamais... Não se nem direito o que se passa comigo mesmo, qual autoridade eu teria para poder entender o que se passava com outrem?
Nos beijamos mais uma vez, dessa vez com mais intensidade. Uma intensidade maior e mais incontrolável. Agora sabíamos o que estava nos esperando... O beijo foi se tornando maior, cada vez maior. Abrimos os olhos, faiscávamos. Uma centelha em dois corações petrificados pela falta de amor, pela ausência.
Nos beijávamos agora como dois amantes de longa data e que não se viam. Eu amava Joana, mesmo que por uma hora apenas. Era a consolação do amor, ou pelo a-mor. Ah, Joana... esperei por ti toda essa minha vida, na últimas 48 horas que era agora a minha vida.
Nos beijávamos com o fervor do fogo! Em alguns instantes estávamos nos des-nudando bestialmente. Nossos corpos transpirados transpiravam a ânsia de se encontrar. Ela tremia, eu quase explodia.
Pronto! Estávamos nus! Dois virgens em busca da descoberta suprema! Era lin-do! Era linda! Era magnífico!
Estávamos pronto, um para o outro. Tinha que ser agora.
Só mais um pouco...
Só mais um pouco...
Só mais um pouco...
E foi! Estávamos em êxtase! Em agonia! Era muito humano, muito orgânico, o suor, a fala, os sons, a pele... Tudo nos levava ainda mais firmes um para o outro.
No meio ao transe corpóreo algumas imagens começam a pulular na minha reti-na. Imagens de um passado presente que me sombreava as idéias de amor e desilusão. Ela nos braços dele, em um eterno abraço de amor e paixão... Estava perdida a sensação de infinitude para todo o infinito... Era mais do que pesaroso, era horroroso... Em ques-tão de alguns dias estava sozinho no mundo. Só tinha a Madame...
Estava petrificado, tinha virado uma estátua. Um ídolo totêmico de carne, osso e sangue, sem alma. Joana me olhava.
- Você ta bem? Não ta gostando?
Seus olhos ainda faiscavam, só que agora de medo...
- Fala comigo...
Eu começo a gritar e a pular e atirar qualquer coisa que as minhas mãos alcan-cem nas paredes do vestíbulo. Gritava. Gritava com Joana, gritava comigo, gritava com ela, gritava com ele, gritava para todo o mundo, todo o mundo, ouvir o que estava se passando comigo.
Ela, assustada, vai até a cômoda e saca uma arma. Um velho trinta e oito, prova-velmente nem a Madame sabe que ele existia. Ela aponta a arma para mim, eu vejo e vou para cima dela. Dou-lhe um forte empurrão e ela cai no chão. Naquele instante pego a arma e com ela em punho percebo que o grande mal da minha vida era Joana, era o símbolo da minha destruição, da minha queda.
Sem pensar em mais nada, como Epimeteu, faço o que precisava ser feito...
Um estouro de arma. E depois barulho na escada. Um corpo no chão já esfriando e endurecendo. Não havia mais dor alguma, de forma alguma.
- Filho, o que você fez?
Joana repousava morta no chão do quarto 14, meus segredos estavam com ela guardados para todo o sempre. E a dor que eu sentia por toda essa situação simplesmen-te sumiu, se fora. Era tudo o que precisava, de alguém que me ouvisse e que eu nunca mais pudesse ver na vida.